A mudança de hábitos pelo viés da motivação

Sem entrar em um debate sobre a avaliação dos hábitos, é possível partir da premissa de que, para boa parte das pessoas, alguns hábitos são mais positivos, saudáveis, enriquecedores do que outros. E todos nós, muito provavelmente, temos hábitos que gostaríamos de evitar e hábitos que gostaríamos de desenvolver.

Estudar com afinco, ingerir alimentos saudáveis, fazer exercícios físicos, dormir bem são alguns exemplos de comportamentos frequentemente vistos como positivos. Por outro lado, ficar muito tempo diante de uma tela, estudar apenas na véspera, comer “besteiras” na rua são hábitos que muitos gostariam de evitar ou reduzir ao mínimo. Se é verdade que muitas pessoas gostariam de mudar seus hábitos, praticando os mais saudáveis e evitando os prejudiciais, por que isso é tão difícil?

Bem, para começar, talvez seja interessante investigarmos a própria natureza dos hábitos humanos, começando por sua definição. O dicionário Michaelis online começa dizendo que hábito é a “disposição de agir constantemente de certo modo, adquirida pela frequente repetição de um ato”.

Repare que as palavras “constantemente” e “repetição” não estão aí por acaso: os hábitos têm essa essência de algo que se mantém com o tempo, que resiste às transformações e às circunstâncias da vida. Em uma época da história tão intensamente marcada pela inconstância, já temos uma primeira pista sobre a dificuldade de cultivar hábitos: a necessidade de resistir e permanecer fazendo algo, diante de tantos “apelos” em sentido diferente.

Da natureza “automática” dos hábitos

Aprofundando um pouco mais essa percepção, cabe considerar também o aspecto “biológico” dos hábitos. Em certos ramos da Medicina e da Psicologia, interpreta-se que a “habitualidade” de certos comportamentos seja reflexo de uma herança evolutiva. Simplificadamente, a ideia é que o comportamento humano, sobretudo em situações mais “automáticas”, funciona dentro de um padrão “gatilho-atitude-recompensa”, que favorece a sobrevivência do indivíduo e da espécie. Algo assim: ao comer um doce, o sujeito é “recompensado” por sensações muito prazerosas, pois a ingestão calórica é muito necessária à sobrevivência em cenários hostis. Essa recompensa corporal leva as pessoas a priorizarem doces quando sentem fome, desenvolvendo um hábito.

A ideia básica aí presente é que, em certo contexto, realmente foi muito produtivo que tenhamos nos habituado a ingerir calorias de rápida disponibilidade. O problema é que, com o tempo, duas distorções acabaram ocorrendo.

A primeira é que o cenário muda, mas o sistema de recompensas não se altera simultaneamente. Ou seja, mesmo que não esteja diante de uma ameaça à sobrevivência (em que precise de muita energia para lutar pela vida), o indivíduo continua sentindo prazer ao ingerir doce. A segunda é que acabam ocorrendo analogias mentais distorcidas: como a comida doce dá prazer, o indivíduo acaba procurando essa recompensa diante de “gatilhos” emocionais diversos (tristeza, ansiedade), que não têm qualquer relação com a fome física.

Tipicamente, os hábitos que mais desenvolvemos são aqueles que remetem a outro valor importante da nossa herança evolutiva: a eficiência. Isso quer dizer que tendemos a desenvolver os hábitos que sejam “econômicos” (no sentido de nos exigirem pouco), fáceis, quase inerciais. Dito de outro modo, o homem tende a evitar os caminhos mais trabalhosos para atingir os mesmos benefícios. Se estou triste e “resolvo” isso comendo chocolate, por que tentaria abordar e enfrentar meu sentimento de outra forma?

Em suma, muitos hábitos que consideramos negativos ou prejudiciais a outras dimensões da nossa vida são apenas respostas automáticas a gatilhos mentais difíceis de desarmar. Difíceis, mas não impossíveis…

Motivação: inspiração para a mudança de hábitos

Voltando ao nosso objetivo — que é o de discutir a criação de hábitos acadêmicos saudáveis, no lugar dos improdutivos —, o mais importante é descobrir quais são os caminhos de que podemos dispor para realizar essa transformação.

Em linhas gerais, uma boa estratégia consiste em tentar “manipular” esses mecanismos automáticos a nosso favor, revertendo tendências e induzindo comportamentos. Para isso, existem diversos estudos e diversas abordagem. Neste texto, falaremos mais especificamente sobre a dimensão inspiracional: a motivação. Quando existe algo que nos empolgue verdadeiramente, que dê sentido ao presente, nossas ações tendem a ficar muito mais convergentes com o que gostaríamos de fazer.

De fato, a experiência em sala de aula revela que, em média, estudantes na reta final do Enem e do vestibular estudam muito mais do que aqueles distantes dessas provas. Da mesma forma, candidatos que tenham muita clareza sobre seu desejo de carreira (seja ela mais fácil ou difícil de alcançar, em termos da concorrência) costumam se dedicar muito mais às aulas e aos exercícios do que aqueles que não sabem muito bem o que querem.

Não estamos querendo propor, com isso, que os estudantes precisem definir com clareza seus desejos futuros muito cedo, até porque, em muitos casos, é saudável que a decisão seja fruto de uma reflexão ponderada. O objetivo principal, aqui, é que se perceba a força de uma boa motivação para reunir energia e permitir que uma pessoa transforme seus hábitos. Todos nós podemos reconhecer esses mecanismos na vida cotidiana. Quando temos uma viagem se aproximando, ou uma festa empolgante, ou um show da nossa banda preferida, somos capazes de mobilizar todo o nosso tempo e a nossa energia para fazer o que for necessário na direção desse objetivo, não é verdade? O que muda quando passamos desses exemplos ao estudo cotidiano?

Basicamente, há duas diferenças decisivas. A primeira é o fato de que, muitas vezes, no dia a dia, os grandes objetivos estão muito distantes no tempo. A segunda, relacionada a essa distância, é o fato de que, ao mergulhar nas tarefas em si, costumamos deixar de lado a razão principal que nos leva (ou deveria nos levar) a fazer cada tarefa cotidiana. Ou seja, fazemos as coisas sem nos lembrarmos do porquê, sem visualizarmos os benefícios futuros, sem identificarmos o ponto de chegada do caminho em que estamos.

Nessa perspectiva, tudo indica que o direcionamento dos hábitos passa por quatro estágios ligados à motivação:

  • Identificação das motivações: é preciso refletir sobre aquilo que se deseja alcançar, sobre os grandes objetivos pessoais geralmente ligados a valores pessoais (ou seja, não se trata necessariamente de algo concreto; pode ser “conhecimento”, ou “relevância para o mundo”, ou “experiência e aventura”);
  • Reativação frequente: o estabelecimento de lembrança ativa e constante das nossas grandes motivações ajuda a experimentá-las mentalmente;
  • Conexão presente-futuro: a ideia é tentar associar tarefas cotidianas (inclusive as que pareçam menos relevantes) com os objetivos mais inspiradores, que costumam estar no longo prazo;
  • Criação de metas intermediárias: a criação de metas de curto e médio prazo para motivações distantes pode ajudar a estabelecer algo realizável em um contexto mais próximo.

Para ilustrar melhor essas ideias, imaginemos um estudante que perca muito tempo navegando na internet, em vez de estudar, e queira mudar esse hábito. Ou então um aluno que fuja do estudo de Química, por não gostar da disciplina, mas que está preocupado com suas notas na matéria. Ou ainda uma pessoa que fique jogando videogame até tarde, sempre adiando o horário de dormir e talvez preferisse ter um pouco mais de saúde no sono.

Algumas estratégias

Em todos esses casos, há uma premissa importante: os indivíduos reconhecem que alguns hábitos atuais são nocivos e gostariam de modificá-los. A partir disso, poderiam tentar passar pelos estágios sugeridos acima. Como isso pode parecer excessivamente abstrato, temos algumas sugestões de ações práticas:

1. Conversar com alguma pessoa em que se reconheça confiança

Pode ser um parente (os pais, um tio ou tia, os avós), um amigo da família, um professor, enfim, uma pessoa mais experiente e serena, que possa ajudar o estudante a descobrir o que deseja, o que o motiva, ou seja, a colocar as coisas em perspectiva. Nessa conversa, sugerimos que sejam abordados temas como futuro profissional, valores pessoais, medos e desejos.

O objetivo é que se consiga ir visualizando alguma espécie de missão pessoal inspiradora (mesmo que pareça algo distante à primeira vista): inventar um produto que não exista; fazer uma descoberta científica; produzir uma obra artística; ser relevante para a saúde de outras pessoas; participar de um projeto significativo de transformação do país; atuar em defesa de pessoas hipossuficientes; ajudar outras pessoas a mudarem seu olhar sobre o mundo; criar um empreendimento que faça algo novo; participar ativamente da educação de outras pessoas; ajudar a combater as injustiças do mundo. São muitos os exemplos, quase todos um pouco genéricos. Desde que não sejam muito genéricos (“ser feliz”) ou materiais em excesso (“alcançar sucesso financeiro”), tudo bem.

Uma boa estratégia é tentar associar a missão imaginada a alguma pessoa real (próxima ou distante; viva ou não). Depois, aos poucos, em outras conversas, pode-se tentar ir delineando um pouco melhor essa imagem, associando-a a campos profissionais. Por exemplo: alguém que queira participar do combate às injustiças do mundo pode começar a ser ver como membro do Poder Judiciário, ou então como professor, ou ainda como economista que trabalhe com políticas públicas. Afinal, as profissões podem ser entendidas como meios para que diferentes missões sejam atingidas. Nesse ponto, filmes e livros biográficos sobre figuras de referência costumam exercer um valioso papel inspirador.

2. Organização da rotina por metas

Objetivos inspiradores costuma ser distantes. E, como vimos, a distância no tempo acaba nublando a visão no presente. Por isso, uma boa estratégia é tentar “quebrar” os grandes objetivos em metas de curto ou médio prazo.

O ideal é que as metas representem algum desafio (ou seja, não devem ser fáceis demais), mas estejam dentro de uma faixa provável de atingimento. É extremamente útil criar algum tipo de “mapa” dessas metas, anotando-as e registrando cada etapa alcançada. A visualização de algo à frente, misturada ao registro do que foi alcançado, pode ter bom efeito inspirador.

3. Reativadores motivacionais

Com a rotina, como dissemos, mesmo as pessoas mais dirigidas por grandes objetivos acabam se esquecendo deles. Nesse sentido, uma boa recomendação é que se criem “gatilhos” para reativar as motivações maiores. A ideia é que, de vez em quando, sejamos despertados do “piloto automático” e possamos rever nossos sonhos, ganhando um novo “fôlego” para encarar a rotina. Esses reativadores podem ser de várias naturezas:

  • Conversar novamente com alguém inspirador;
  • Assistir a alguma palestra motivacional (entre as já famosas “TED Talks”, podem ser encontradas palestras curtas muito impactantes, justamente com esse objetivo. A esse propósito, sugerimos esta playlist, criada pelos próprios organizadores do TED);
  • Ver ou rever um filme que contemple o conteúdo dos nossos sonhos;
  • Construir um grande cartaz, com uma frase que resuma a missão a ser alcançada e um espaço em branco na parte de baixo, que possa ser preenchido, a cada semana, com alguma atividade que tenha ajudado o aluno a se aproximar um pouco mais de seu sonho;
  • Agendar, a cada semana ou a cada mês, um evento de revisão dos grandes objetivos (um passeio sozinho, por exemplo)
  • Marcar visitas periódicas a lugares relacionados a esse sonho (no caso dos vestibulandos, assistir a uma aula na universidade desejada ou pedir a alguém para passar um dia acompanhando o trabalho que se deseja ter no futuro).

4. “Treinador” pessoal (“coach”)

Pode-se pedir a um amigo ou parente que funcione como uma espécie de “coach”, ou “treinador pessoal”. Uma pessoa assim, escolhida pelo próprio indivíduo, pode estabelecer conversas periódicas (quinzenais, mensais) sobre as conquistas recentes e as próximas metas. A ideia é que uma outra pessoa atue como consciência ativa do aluno, cumprindo o importante papel de reativação dos objetivos.

Se houver acompanhamento dessas conversas, tanto melhor: em cada encontro, recuperar o que foi “prometido” no encontro anterior e projetar novas conquistas, a serem validadas no encontro seguinte. Esse reforço externo constante costuma ser um forte indutor de bons hábitos.

Nesse caso, embora os pais sejam as pessoas mais interessadas em que os filhos estejam motivados, é possível que esse papel de “treinador” nem sempre funcione tão bem, por se misturar a outros papéis, menos agradáveis (cobrança, disciplina). É muito comum que o filho tenha dificuldade em separar os momentos de inspiração daqueles em que existe pressão.


Devemos reconhecer que a mudança de hábitos está longe de ser algo trivial. No entanto, há numerosos exemplos de pessoas que conseguiram se transformar de forma consistente, servindo de exemplo para todos nós. O caminho da motivação é apenas uma das abordagens possíveis. Em textos futuros, falaremos sobre outras ideias.

 

Autor: Bruno Rabin

Diretor Acadêmico do Colégio e Curso Pré-Vestibular de A a Z, do Rio de Janeiro.

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