Não se torne refém do perfeccionismo

A definição da palavra “perfeito” sugere a ideia de algo “completo”, “feito de todo, sem que nada falte ou sobre”. No âmbito acadêmico, às vezes nos referimos a uma “resposta perfeita”, a uma “prova perfeita”, a uma “redação perfeita”. Trata-se de uma avaliação elogiosa, sem dúvida, mas também subjetiva: o grau de exigência de cada pessoa pode variar e aí um pequeno detalhe pode ser visto como falha, como imperfeição.

Quando uma pessoa é altamente exigente com suas obras e as dos outros, dizemos que se trata de alguém perfeccionista. Nesse caso, porém, há menos elogio do que crítica. E o pior: pessoas perfeccionistas costumam acumular uma certa dose de angústia e frustração, eventualmente chegando a uma espécie de paralisia: “Se não consigo fazer algo perfeito, é melhor nem fazer nada”, pensam. Diante de quadros assim, um desafio se impõe: desconstruir a lógica do pensamento perfeccionista.

Diagnóstico: você é perfeccionista?

Na experiência da sala de aula, professores conseguem reconhecer com frequência alunos com esse perfil. Eles costumam se cobrar excessivamente por falhas de todos os tipos, até as mais simples ou desimportantes. São alunos que se irritam com rasuras no caderno e ainda mais com erros cometidos em um teste. Em tarefas de maior fôlego, como uma redação, esses estudantes tendem a investir tempo excessivo nas tarefas de planejamento, escrevendo e reescrevendo a introdução algumas vezes. Ao longo de provas com muitas questões, não conseguem ir adiante, sem esgotar seu esforço para resolver cada exercício.

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De modo mais esquemático, podemos reconhecer três atitudes significativas das pessoas perfeccionistas, que se acumulam no tempo: evitação inicial, não cumprimento de prazos e até a não realização.

  • Evitação inicial – o primeiro sintoma reconhecível no perfeccionista é que ele costuma evitar o início de atividades mais complicadas. Esse adiamento se baseia na fantasia idealista: enquanto a tarefa está no campo das ideias, a perfeição está “garantida”. O enfrentamento real da atividade, no entanto, vai acabar revelando imprecisões, falhas, defeitos. Nessa perspectiva, adiar significaria manter-se num plano supostamente confortável do ideal imaginado.
  • Não cumprimento de prazos – quando a atividade é inescapável, advém um segundo sintoma típico: a dificuldade de cumprir prazos. Muitas vezes, isso se traduz na quase impossibilidade de controlar seu ritmo de trabalho. Quase sempre, esse indivíduo gasta muito tempo nas etapas de planejamento e não consegue ir adiante enquanto não resolver as falhas no meio do caminho. Em provas extensas, como o Enem, um estudante perfeccionista acaba deixando a prova “pela metade”, justamente porque não “pulou” questões que estavam exigindo mais do que ele poderia oferecer. É como se ele tivesse enorme dificuldade de aceitar alguma “derrota” parcial.
  • Não realização – por último, outro sinal de que o estudante tem essa marca do perfeccionismo está na simples não realização de algumas atividades. Isso se aplica, com maior frequência, às coisas que “podem” ser abandonadas: exercícios que não valem para a nota, redações para treinamento, projetos interessantes, porém “adiáveis para sempre”. É como se o ele preferisse desistir antes mesmo de tentar. Ao longo de sua vida acadêmica, ele consegue perceber, ao iniciar uma tarefa, o quanto será improvável atingir a perfeição. Essa improbabilidade significa, para ele, uma frustração antecipada, que ele prefere evitar.

A psicologia do perfeccionismo

Muitas vezes, o perfeccionista cria armadilhas para si mesmo: ao abandonar uma tarefa ou se frustrar pela realização imperfeita, ele faz uma leitura ainda mais exigente de si mesmo. É como se pensasse: “Da próxima vez, vou compensar esta falha aqui com uma realização ainda melhor”. Ou seja, ele aumenta ainda mais sua própria demanda por excelência, tornando mais difícil ainda o atingimento de seu objetivo.

Esse círculo vicioso é muito comum e se configura como uma espécie de autossabotagem. Ao estabelecer padrões inatingíveis de perfeição, o perfeccionista determina — de forma não intencional, é claro — sua provável frustração. Nos casos mais patológicos, cada decepção vai alimentando a sensação de incapacidade, podendo levar até mesmo a quadros de depressão.

Na origem do perfeccionismo, há histórias pessoais dos mais diversos tipos, quase sempre apontando para algo que cria, no indivíduo, essa não aceitação de falhas, em si mesmo e também nos outros. É como se esse indivíduo desenvolvesse uma forma rígida de enxergar o mundo, tendo muita dificuldade em flexibilizar as circunstâncias. Flexibilizar seria, para ele, aceitar falhas.

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Ainda que as histórias individuais sejam variadas, há algo convergente na “psicologia” do perfeccionismo. Quase sempre, o indivíduo imagina que um erro é muito mais grave do que a realidade indicaria. Mais do que isso, o perfeccionista típico interpreta que uma falha sua seja a denúncia de uma ausência de valor pessoal. Algo assim: “Esta falha aqui mostra que eu sou falho, que eu não tenho valor.”

Isso nos ajuda a entender por que é tão difícil abrir mão dos mecanismos perfeccionistas. Afinal, segundo essa lógica, errar é catastrófico.

Dizendo com outras palavras, o que move o comportamento perfeccionista não é exatamente a motivação para atingir algo muito valioso, completo, perfeito. Seu “incentivo” é evitar os erros. Por isso, envolver-se em uma atividade complexa parece tão pouco atraente: em vez de enxergar a “medalha de ouro” adiante, o perfeccionista está tentando fugir daquilo que julga ser vergonhoso.

Como desconstruir a fantasia dos objetivos inatingíveis

Para quem olha de longe, o comportamento de um perfeccionista típico pode parecer exagerado ou até ridículo. “Para que dar tanta importância às coisas? Por que esse excesso de rigor? Nossa, que preocupação exagerada!” Para o próprio indivíduo, porém, não se trata de experiência superficial. Afinal, sua sensação é de que seu valor mais profundo está em jogo a cada momento.

A desconstrução dessa tendência não é simples, pois pode remeter a traumas e a circunstâncias muito pessoais. A esse propósito, como já fizemos outras vezes, sugerimos que  abordagem psicoterápica pode ser o caminho mais indicado para os casos mais graves, isto é, aqueles em que as consequências parecem insuportáveis e intransponíveis.

Para o perfeccionismo menos grave, no entanto, existem quatro abordagens que podem ser bastante fecundas, o que não significa que sejam rápidas ou fáceis. Como diz um professor do _A_Z, “quase nunca existem atalhos simples para tarefas complicadas.” Então, vamos a esses caminhos.

1. Racionalização das consequências

A primeira estratégia consiste em mudar a mentalidade do perfeccionista acerca do peso dos erros. Por meio de conversas e reflexões, é possível demonstrar para ele (ou para si mesmo, se for o seu caso) que as pessoas erram, que errar é um “direito” e que, na maioria das vezes, ninguém julgará um erro dele (seu) como uma falha de caráter.

Pode-se sugerir ao perfeccionista que tente se lembrar de situações em que cometeu alguma falha ou em que não foi “perfeito” na escola, nas relações pessoais, nas interações sociais. Deve-se perguntar a ele o que sentiu naquelas situações (provavelmente um enorme desconforto), mas também quais foram as consequências efetivas de seu erro. Ele teve outra chance? As pessoas à sua volta romperam relações com ele? Os amigos o deixaram? Certamente, nada disso ocorreu. Isso prova que, a não ser em questões de vida ou morte, em questões profundas de caráter, as consequências das falhas não costumam ser tão graves assim.

Aliás, essa mesma reflexão pode ser aplicada à avaliação do comportamento de outras pessoas. Tentar pensar em amigos e familiares que tenham falhas de comportamento e no quanto essas imperfeições têm um peso mínimo em nosso afeto por essas pessoas.

Em suma, a abordagem aqui sugerida é a de levar o perfeccionista a racionalizar sua relação com os erros, tentando separar seu próprio valor das coisas que ele faz. Essa tomada de consciência não ocorre de uma hora para outra. Trata-se de algo a ser reforçado muitas vezes, diante de cada situação em que o medo de falhar apareça. Com esse reforço constante, aos poucos, o indivíduo consegue ir se sentindo mais sereno diante de falhas que venha a cometer.

2. Experimentação das emoções ligadas à falha

Uma segunda abordagem interessante usa o viés psicológico em favor da desconstrução do perfeccionismo. Entendendo que o perfeccionista tem uma visão distorcida sobre o efeito de seus erros, esta estratégia complementa a primeira (racionalização). Também se se quer “ensinar o cérebro” a perceber que o pensamento fatalista não tem sentido. A diferença é que o momento em que isso ocorre: enquanto a racionalização funciona no momento anterior às tarefas, a coleta de evidências atua depois, diante da experiência do erro.

A ideia básica é aproveitar as situações em que erros aparecem. Naturalmente, eles vão aparecer na enorme maioria das vezes (senão na totalidade) em que o indivíduo realizar alguma tarefa. Nesse sentido, a sugestão para o perfeccionista é que ele não fuja das emoções que aparecem nesses momentos. Ele deve experimentar plenamente as sensações de frustração, tentando aprender algo com essas experiências.

Para fazer isso, o indivíduo precisa prestar atenção aos sinais que ocorrem em seu corpo e tentar estabelecer algum distanciamento. Em vez de julgar essas sensações como negativas, pode-se aplicar uma espécie de descrição objetiva desses sinais:

Neste momento, sinto um leve aperto no peito e algum nó na garganta. Consigo perceber que meu rosto está um pouco tenso, tendo até dificuldade para iniciar um sorriso sincero. Sinto uma sensação de inércia, como se meu corpo não estivesse pronto para fazer nada.

Qual é o sentido dessa abordagem? A premissa que a sustenta é simples: ao entrar em contato com a dimensão corporal da emoção de forma objetiva e não julgadora, consegue-se perceber que se trata de algo natural e limitado. Ou seja, o indivíduo deixa de ser capturado pelos pensamentos fantasiosos sobre sua falha — que são um “combustível” para a própria sensação — e percebe que a emoção propriamente dita é circunstancial e passageira.

Ao praticar essa atenção aos estados do corpo nessas situações em que uma falha aparece, o perfeccionista pode aprender a lidar com emoções que ele não controla, acostumando-se a falhar. Isso é necessário, uma vez que essa imperfeição voltará a acontecer muitas e muitas vezes em sua vida. Já que é absolutamente impossível evitar os erros, a recomendação é não se tornar refém dos pensamentos catastrofistas que aparecem nesses momentos. E o melhor caminho para isso é se concentrar na dimensão real e concreta da emoção, que ocorre no nível do corpo apenas e que é muito limitada.

3. Criação de metas aceitáveis não idealizadas

Essa terceira estratégia é mais prática e deve ser aplicada a cada situação em que se esteja enfrentando a ansiedade do perfeccionismo. Para melhor explicá-la, considere a imagem a seguir:

imagem 1

Essa imagem propõe uma “régua” imaginária, cujos extremos são um resultado ideal e um resultado inaceitável. O perfeccionismo consiste em aceitar apenas um grau de resultado, que é justamente o mais positivo. No entanto, o próprio perfeccionista pode reconhecer que outros desfechos seriam aceitáveis.

Tomemos um exemplo: o aluno vai começar uma redação, treinando para o Enem, e se exige fazer uma redação perfeita, que atinja a nota 1.000. Essa redação teria todas as possíveis virtudes de um texto e nenhum defeito. Obviamente, nenhuma ideia é boa o suficiente para sequer iniciar esse texto, e o estudante acaba entrando no circuito de evitação e abandono, típico do perfeccionismo.

No entanto, se esse estudante puder refletir um pouquinho, ele sabe que uma nota 750, enquanto está justamente se preparando para uma prova no final do ano, pode ser bastante aceitável. Assim, a sugestão é que o perfeccionista seja levado a definir um resultado que, embora imperfeito, seja aceitável para ele. A ideia é que ele crie uma linha imaginária entre o aceitável e o inaceitável, tentando caracterizar a diferença entre os dois possíveis resultados.

No nosso exemplo com a redação, ele poderia pensar assim:

Eu não aceitaria fugir ao tema, cometer erros graves de gramática, não conseguir terminar a redação em 1h15, ter uma argumentação contraditória ou muito superficial. Mas aceitaria não colocar algum argumento que não me ocorra na hora, alguns erros pouco graves de gramática, alguma falta de clareza bem circunstancial, um ponto de vista não original, mas bem explicado. Ou seja, eu não sentiria vergonha de elaborar uma redação apenas boa. 

Ao realizar uma reflexão desse tipo, o estudante cria uma “linha imaginária” na nossa “régua de qualidade”, em que diminui um pouco seu grau de exigência. A importância dessa reflexão é antecipar um cenário de imperfeição e verificar que ele é, na verdade, aceitável.

imagem 2

Com isso, ao iniciar a tarefa propriamente dita, o objetivo final estará estabelecido e será muito menos idealizado. Vale ressaltar que essa linha divisória funciona bem quando é bem caracterizada, quando é descrita em detalhes, de forma “concreta”. Essa concretização do que podemos aceitar em termos de imperfeição ajuda a garantir metas alcançáveis de forma antecipada, desfazendo previamente o ciclo de autoexigência pela perfeição.

4. Aplicação do PDCA

Uma quarta e última estratégia que sugerimos para desconstruir o perfeccionismo é aplicar a mentalidade PDCA à própria vida. Como muitos alunos do _A_Z já sabem, nós adaptamos essa ferramenta de gestão da qualidade para a orientação de estudos dos alunos.

Explicando-o de maneira bem simples, o PDCA é a sigla, em inglês, para quatro ações sucessivas e cíclicas: planejar (“plan”), executar (“do”), checar a execução (“check”) e atuar corretivamente (“act”). O princípio básico dessa ferramenta é o de que não devemos ficar presos apenas à execução de tarefas e à checagem de resultados. É preciso planejar bem as coisas antes de realizá-las e também atuar nos erros, corrigindo-os no planejamento do próximo ciclo.

ciclo PDCA alta res COR

Pode-se notar que a “filosofia PDCA” traz em si uma premissa muito interessante: a de que os erros fazem parte dos processos. Dito de outro modo, o PDCA propõe a melhora contínua, porque supõe que nunca teremos uma execução perfeita, existindo sempre algo a melhorar.

Nessa perspectiva, a mentalidade a ser adotada pelo perfeccionista é a de que suas tarefas fazem parte de um contínuo, em que cada ciclo é seguido de outro. Mais do que se exigir o acerto completo desde a primeira vez, pode-se tentar arriscar mais nas execuções, tomando o cuidado de analisar os resultados obtidos, para que, na próxima vez, as mesmas falhas não se repitam.

Mais uma vez, portanto, sugerimos aqui um caminho que envolve a premissa de que os erros são inevitáveis. Se empresas de altíssimo nível utilizam essa ferramenta em suas gestões, é porque elas sabem que a melhora acontece ao longo do caminho, e não de uma vez por todas. Podemos tentar pensar da mesma maneira em termos de objetivos acadêmicos.

Autor: Bruno Rabin

Diretor Acadêmico do Colégio e Curso Pré-Vestibular de A a Z, do Rio de Janeiro.

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