Aprender ensinando: a técnica Feynman

Imagino que você tenha alguns excelentes professores. Se puder ter uma conversa com pelo menos algum deles, pergunte como foi que ele aprendeu essas coisas que ensina. Ele provavelmente dirá que era um bom aluno na escola e que fez uma boa faculdade. Insista na investigação, perguntando sobre algum tópico especialmente complicado:

“Quer dizer que, quando você começou a dar aulas, já dominava assim o assunto X, só com o que aprendeu durante a faculdade?”

Muito provavelmente, se ele puder fazer uma reflexão honesta, dará a seguinte resposta:

“Olha, pra ser sincero, eu aprendi mesmo sobre isso quando comecei a dar aulas.”

Repita essa investigação com outros professores. Você descobrirá que essa resposta é muito mais comum do que parece, e ajuda a perceber que o esforço para ensinar algo é um dos melhores caminhos – senão o melhor – para realmente aprender sobre algum assunto. Essa é a premissa da “técnica Feynman”, que explicamos a seguir.

Ganhador do Nobel em 1965, Richard Feynman (1918-1988) foi um físico teórico norte-americano, responsável pelo desenvolvimento da “eletrodinâmica quântica”. Ele chegou a trabalhar no Brasil durante alguns meses, no início dos anos 50, como professor convidado do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) – e escreveu sobre essa experiência em um de seus livros.

Mais do que sua contribuição à Física, o que nos interessa aqui são seus achados sobre aprendizagem. Ao que tudo indica, Feynman percebeu que, ao explicar conceitos complexos a estudantes e colegas, o grau de aprendizado dependia não apenas da qualidade das explicações, como também da forma como cada pessoa processava o conteúdo apresentado.

Em alguns casos, o aprendiz acabava tendo uma apreensão apenas superficial do que estava sendo transmitido, contentando-se em “saber os nomes das coisas”. Em outros, a sabedoria do estudante estava em querer realmente entender um conceito ou raciocínio.

Sobre o primeiro grupo, Feynman ficava especialmente incomodado com o efeito que pseudo-cientistas exerciam sobre alguns leigos. Ao usar palavras difíceis e termos técnicos, davam a impressão de domínio do assunto, exercendo certo poder sobre o público. Feynman dizia que perguntas simples poderiam desmascarar essas pessoas, mostrando que, por trás da linguagem complicada, quase sempre se escondiam inseguranças e conteúdos rasos.

Ou seja, para o físico, saber os nomes das coisas não significa que o indivíduo realmente entenda sobre o quê está falando. E muitas pessoas passam a vida acadêmica investindo mais tempo nisso (e na memorização desses “nomes”) do que se esforçando para realmente entender algo.

Em vez de saber “nomes”, entender ideias

Analisando mais atentamente o segundo comportamento de aprendizado — o único efetivo —, o físico percebeu algumas características e sistematizou o processo em uma técnica, voltada a qualquer situação em que uma pessoa quer aprender de verdade alguma coisa, independentemente de estar fazendo um curso regular.

Também é interessante notar que a técnica Feynman se aplica a qualquer campo do conhecimento, e não apenas à Física ou às Ciências da Natureza. Pode ser utilizada para Linguagens, Economia, Sociologia, História, Psicologia, o que quer que seja.

Mas de que forma essa técnica funciona na prática? Como você vai ver, trata-se de uma metodologia bastante simples e que pode ser dividida em quatro etapas:

1º Passo: Escolha um conceito ou tema pontual e o estude

A ideia aqui é que o estudante tenha foco, e o “conceito” é o recorte ideal para isso. Não é tão amplo quanto um “assunto”, nem tão específico quanto uma “fórmula” ou um exercício. Nesse sentido, vale refletir um pouco e se perguntar o quê, dentro de uma certa área do conhecimento, parece especialmente desafiador naquele momento.

Ao pesquisar sobre esse tópico, o estudante pode fazer anotações, copiar trechos, elaborar pequenos esquemas. Esse material é uma espécie de rascunho e não precisa ficar muito organizado.

Alguns exemplos de conceitos que um estudante poderia eleger em diferentes matérias são os seguintes: “energia” (Química), “movimento” (Física), “regência verbal” (Gramática), “argumento” (Redação), “desobediência civil” (Sociologia), “globalização” (Geografia), “terceirização” (Economia), “inconsciente” (Psicologia), “Estado” (História)…

Essa lista tende infinito, mas cada aluno tem uma ideia dos tópicos nos quais se sente especialmente inseguro.

2º Passo: Escreva esse conceito, como se o estivesse explicando a uma criança

Após o estudo inicial, deve-se passar a essa etapa de sistematização do conhecimento, mas de maneira simplificada. Para realizar essa tarefa, é realmente importante ter em mente o “objetivo” de explicar o conceito a um leigo, colocando-se no lugar de uma pessoa que quer mesmo fazer a outra entender as ideias.

Esse segundo passo da técnica envolve dois importantes “truques” que a tornam efetiva.

O primeiro é que o desafio de escrever o conceito vai fazer o estudante identificar as limitações do seu conhecimento. Muito provavelmente, ainda que se esforce por dar conta de tudo, ele deixará algumas “lacunas” por preencher. Nessa etapa, isso não é um problema, mas justamente o caminho para a solução. Afinal, a consciência real sobre o que não se sabe é o pressuposto para a procura de entendimento.

O segundo “truque” diz respeito à necessidade de utilizar uma linguagem bem simples e acessível (como se seu receptor fosse uma criança). Isso o obrigará a “traduzir” a linguagem acadêmica em frases mais claras. Termos técnicos e conceitos abstratos precisarão ser substituídos por palavras comuns, em frases diretas.

3º Passo: Volte ao tema e pesquise mais sobre ele

Como explicamos acima, ao escrever o conceito pela primeira vez, o estudante provavelmente reconheceu falhas em sua descrição do conceito. Chegou a hora de enfrentá-las.

Para isso, poderá voltar às fontes de pesquisa iniciais ou até recorrer a novos materiais: apostilas, livros didáticos, artigos de especialistas, entrevistas de professores, vídeos ilustrativos.

Nessa etapa, é interessante refletir sobre cada lacuna preenchida e, se for o caso, anotar o que o levou a preenchê-la.

4º Passo: Revise sua explicação, simplificando-a ainda mais

Nessa última parte, o estudante deve voltar à sua formulação inicial, para revisar o que havia escrito a partir da pesquisa refeita. Muito provavelmente, ele conseguirá melhorar a qualidade da explicação produzida, incluindo aspectos do raciocínio que estavam mal apresentados.

É importante que mantenha em mente sua intenção de se fazer entender, utilizando recursos didáticos e linguagem simples (palavras de fácil compreensão, sem vocabulário técnico).

Particularmente, um recurso que pode ser muito útil é a analogia. De fato, ao comparar um conteúdo abstrato a uma situação próxima do receptor comum, será muito mais provável alcançar seu entendimento. Lembre-se de como jornalistas, por exemplo, comparam qualquer prêmio ao Oscar ou qualquer dimensão territorial a campos de futebol.

Outra dica é ler a explicação do conceito em voz alta: ao se ouvir, o estudante poderá perceber o grau de clareza em sua formulação e melhorá-la ainda mais.

Colhendo resultados

O resultado final da aplicação desses passos será um entendimento realmente completo do conceito estudado. Isso porque o esforço de simplificação obrigou o aprendiz a se envolver intelectualmente com o tópico estudado. É quase impossível traduzir ideias complexas em linguagem não técnica sem ter, de fato, compreendido o que se está dizendo.

Um teste final pode e deve ser executado: apresentar a explicação construída a outras pessoas. Colegas de turma, amigos e familiares costumam ser os mais indicados, pois podem compartilhar o objetivo de ajudar o estudante a se desenvolver.

Nesse momento, ao atuar como professor, é importante contar com a franqueza e a confiança do ouvinte. Só assim será possível receber “feedbacks” honestos e produtivos, em vez de elogios superficiais ou críticas agressivas.

Com esses comentários e retornos, o estudante terá a oportunidade dar um último refinamento em suas explicações. Nesse momento, é altamente provável que já tenha dominado, de verdade, o conteúdo estudado. Quando isso acontece, não se trata do “aprendizado dos nomes”, como Feynman se referia ao estudo superficial das coisas, que depende de memorização.

Ao contrário, o conhecimento estará muito mais enraizado e consistente na cabeça do aprendiz, que estará pronto para o próximo desafio. Nosso conselho é que os alunos experimentem essa técnica, podendo até fazê-lo em grupo no início. Isso pode acelerar o aprendizado coletivo.

Finalmente, sugerimos que o aluno conte com a ajuda de parceiros muito experientes nessa técnica (mesmo que não a conheçam de nome): seus professores. Como dissemos no início, todo professor bom de didática passou muitas vezes pelo desafio de apreender intelectualmente um conteúdo e traduzi-lo em uma explicação compreensível. Pedir ajuda e conselhos sobre os recursos utilizados pode ser bastante proveitoso.

O que acham de colocar essa técnica em prática? Mãos à obra!

Autor: Bruno Rabin

Diretor Acadêmico do Colégio e Curso Pré-Vestibular de A a Z, do Rio de Janeiro.

2 comentários em “Aprender ensinando: a técnica Feynman”

  1. Assimilei cada palavra dita. Mesmo sem nunca ter ouvido falar nesse pesquisador e em seu método, eu já tinha observado isso.
    Muito show, o blog e o conteúdo. Padrão elevadíssimo!

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